Mercado Global de Impressão Deve Crescer para US$ 969,7 Bilhões de 2026 a 2030: Embalagem e Impressão Digital Lideram Transformação

O futuro da indústria gráfica mundial passa por transformações profundas, impulsionadas pela demanda crescente por embalagens, pela explosão da impressão digital e pelos desafios da sustentabilidade. Segundo o mais recente relatório da Smithers, consultoria global especializada em mercados de impressão, o valor do mercado global deve crescer de US$ 868 bilhões em 2025 para US$ 969,7 bilhões até 2030, representando uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 2,2%. Embora moderado, esse crescimento contrasta com a retração contínua de segmentos tradicionais de publicações e produtos gráficos comerciais, apontando para uma reestruturação estratégica do setor em escala planetária.
O panorama atual revela uma indústria amadurecida, na qual a expansão se concentra principalmente em aplicações de alto valor agregado — embalagens, rótulos, impressão funcional e industrial — enquanto os impressos editoriais e promocionais enfrentam declínio estrutural acelerado pela digitalização de conteúdos e mudanças nos hábitos de consumo. Esse contexto exige dos prestadores de serviços de impressão (PSPs) não apenas investimentos em tecnologia, mas também novos modelos de negócio, capacitação de equipes e integração com canais digitais de vendas e produção.
Embalagem como Motor Principal do Crescimento
A embalagem consolidou-se como o segmento mais dinâmico e estratégico do mercado de impressão global. As projeções indicam que, até 2030, quase dois terços do valor total do mercado de impressão serão representados por aplicações em embalagens, rótulos e materiais para ponto de venda. Esse movimento reflete a expansão contínua do comércio eletrônico, a demanda por soluções de acondicionamento mais leves, seguras e sustentáveis, e o crescimento do consumo de produtos embalados em mercados emergentes, especialmente na Ásia-Pacífico, América Latina e África.
No Brasil, o setor de embalagens plásticas flexíveis ilustra bem essa tendência. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (ABIEF), a produção nacional alcançou 2,33 milhões de toneladas em 2024, com faturamento bruto de R$ 37,8 bilhões — crescimento de 7,6% em relação ao ano anterior — e consumo per capita de 11 kg/habitante/ano, alta de 4,3%. A indústria alimentícia responde por cerca de 70% da demanda nacional de embalagens flexíveis, seguida por segmentos como higiene pessoal, limpeza doméstica, pet food e farmacêutico.

Globalmente, o mercado de embalagens atingiu US$ 998 bilhões em 2023 e deve ultrapassar US$ 1,3 trilhão até 2030, com CAGR de 4,8% entre 2023 e 2030, impulsionado pela demanda por soluções inteligentes, ativas e sustentáveis. A região Ásia-Pacífico lidera com 40% do mercado total, seguida pela América do Norte (25%) e Europa (20%).
Impressão Digital em Ascensão: Personalização, Agilidade e Eficiência
A impressão digital representa o segmento de crescimento mais acelerado no setor de impressão, com taxa de expansão bem acima da média do mercado. O valor combinado da impressão digital em aplicações convencionais (gráficas, publicações, rótulos e embalagens) e industriais (têxteis, cerâmica, eletrônicos, componentes automotivos) deve saltar de US$ 194,3 bilhões em 2025 para US$ 244,6 bilhões em 2030, registrando CAGR de 4,7%. Dentro desse total, a impressão digital em embalagens, rótulos e aplicações gráficas deve crescer de US$ 166,9 bilhões em 2025 para US$ 204,8 bilhões em 2030, com CAGR de 4,2%.
A tecnologia inkjet (jato de tinta) domina os investimentos em equipamentos, respondendo por 72% das vendas atuais de novas máquinas digitais, percentual que deve atingir 81,9% até 2035. As velocidades lineares dos sistemas inkjet de alta produtividade alcançaram 410 metros/minuto em 2024 e devem chegar a 500 m/min até 2030, mesmo nas máquinas de maior largura. Paralelamente, os equipamentos de banda estreita (narrow-web) ganham popularidade em rótulos e embalagens flexíveis leves, permitindo tiragens curtas, personalização em massa e dados variáveis com resolução de 1.200 dpi ou superior, a velocidades de até 150 m/min.
Essa evolução tecnológica responde a demandas crescentes de agilidade e tempo de resposta ultrarrápido — o chamado “efeito Amazon” — no qual os clientes esperam entregas no mesmo dia ou no dia seguinte, tornando trabalhos urgentes a nova normalidade. A impressão digital viabiliza tiragens econômicas a partir de uma unidade, reduz estoques, permite campanhas de marketing hiperpersonalizadas com nomes ou imagens exclusivas, e facilita testes de mercado e lançamentos de produtos sazonais.
No Brasil, a demanda por pequenas tiragens e personalização impulsiona a adoção de impressão digital em gráficas rápidas, rótulos, embalagens, etiquetas, convites, cartões de visita e materiais promocionais. Empresas destacam a capacidade de inserir dados variáveis, códigos de barras, QR codes, nomes e imagens individualizadas, agregando valor e conexão emocional com o consumidor.
Flexografia: Tecnologia Consolidada e em Transformação
A flexografia permanece como processo dominante em embalagens e rótulos, especialmente em corrugado, embalagens flexíveis e aplicações de grande volume. Segundo a Smithers, o mercado global de impressão flexográfica alcançará US$ 26,28 bilhões até 2030 (considerando equipamentos e tecnologia), partindo de US$ 19,80 bilhões em 2025, com CAGR de 5,83%.
A flexografia se beneficia do crescimento contínuo da demanda por embalagens e rótulos, especialmente embalagens flexíveis, que devem crescer a 8,21% CAGR até 2030. A tecnologia mantém competitividade frente à rotogravura e ao offset, graças a avanços em qualidade de impressão, automação, clichês avançados e tecnologias de anilox com controle preciso de volume de tinta.
Ao mesmo tempo, a flexografia enfrenta a competição crescente de sistemas inkjet de alta produtividade, especialmente em tiragens curtas e médias, segmento no qual as configurações híbridas (flexografia + inkjet) ganham espaço, combinando velocidade e qualidade da flexografia com personalização e dados variáveis do jato de tinta. No Brasil, empresas exploram essas configurações híbridas, automação, robótica e softwares avançados de gestão de cor e setup de trabalho.
Impressão Industrial e Funcional: Novo Horizonte de Aplicações
A impressão industrial e funcional representa um mercado em franca expansão, movimentando US$ 81,7 bilhões em 2025, o equivalente a 58,8% do valor e 75,1% do volume do mercado global de impressão. Dentro desse segmento, a serigrafia (screen printing) mantém relevância em têxteis, eletrônicos impressos, itens promocionais e aplicações de impressão direta em objetos (direct-to-object), com crescimento projetado de US$ 63,8 bilhões em 2025 para US$ 79,3 bilhões em 2030, CAGR de 4,4%.
Contudo, a impressão digital inkjet expande rapidamente para novas fronteiras: cerâmicas, impressão direta em vestuário (direct-to-garment), baterias para veículos elétricos, componentes biomédicos e automotivos. Esses segmentos, impulsionados por cabeças de impressão especializadas capazes de jatear fluidos de alta viscosidade e características específicas, estão entre os de crescimento mais acelerado até 2030.
Transformação Digital, Automação e Indústria 4.0 nas Gráficas
A adoção de conceitos de Indústria 4.0 transforma gráficas e convertedores em fábricas inteligentes, conectadas e altamente automatizadas. Tecnologias como Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial (IA), big data, robótica colaborativa, visão artificial e computação em nuvem otimizam workflows, reduzem desperdícios, aceleram tempos de setup e aumentam a qualidade e consistência dos produtos.
No Brasil, a Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) registrou crescimento de 3% na produção física nos últimos dois anos, impulsionado por investimentos em inovações tecnológicas. Gráficas adotam sistemas de gestão integrada, que conectam o pedido online do cliente diretamente à linha de produção, permitindo monitoramento e otimização em tempo real de cada etapa, da criação ao acabamento.
A automação e robótica desempenham papel central na flexografia e em outros processos. Braços robóticos movimentam papéis e objetos, sensores coletam dados de máquinas, sistemas de visão artificial controlam qualidade, e algoritmos de IA analisam grandes volumes de dados, fornecendo insights para tomada de decisão, previsão de falhas e otimização de recursos. Até 2030, espera-se que machine learning seja integrado a equipamentos automatizados, permitindo que máquinas tomem decisões autônomas sobre qualidade de impressão e acabamento, levando ao conceito de prensa hiperautônoma, na qual a intervenção humana é necessária apenas para resolução de problemas específicos.
A digitalização e automação também permitem impressão de dados variáveis, na qual cada unidade impressa pode conter informações únicas — nomes, endereços, códigos de barras, imagens personalizadas — agregando valor e conexão emocional com o consumidor final.
Sustentabilidade, Economia Circular e Materiais Inovadores
A pressão crescente por sustentabilidade ambiental redefine o design, os materiais e os processos de impressão e embalagem em escala global. Pesquisa da McKinsey (2023) revela que 55% dos consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos com menor impacto ambiental, enquanto dados da Deloitte indicam que 80% dos consumidores preferem marcas que oferecem personalização. Essas tendências convergem para embalagens sustentáveis, inteligentes e personalizadas, combinando funcionalidade, design diferenciado e responsabilidade ambiental.
A economia circular torna-se princípio orientador, incentivando a transição para estruturas monomateriais (polietileno ou polipropileno puros, facilitando reciclagem), uso de resinas recicladas pós-consumo (PCR), biopolímeros de fontes renováveis (amido, cana-de-açúcar, óleos vegetais), e eliminação de estruturas multimateriais complexas que dificultam reaproveitamento.
No Brasil, apenas 5% da produção de embalagens flexíveis utilizou resinas recicladas em 2024, indicando amplo espaço para avanço. Empresas investem em logística reversa, produção de grânulos PCR a partir de resíduos pós-consumo, e estruturas com até 40% de conteúdo reciclado mecânico sem comprometer funcionalidade. Iniciativas como o CCD Circula trabalham protocolos para garantir segurança de materiais reciclados em embalagens de alimentos, fomentando designs focados em reciclabilidade e circularidade.
As tintas sustentáveis ganham protagonismo na flexografia, offset, serigrafia e impressão digital. Tintas à base de água (aquosas) reduzem drasticamente as emissões de compostos orgânicos voláteis (COVs), melhoram a qualidade do ar nas gráficas e facilitam processos de reciclagem. Tintas UV e LED-UV curam instantaneamente sob exposição à luz, eliminando solventes voláteis, reduzindo consumo energético e aumentando durabilidade e resistência, diminuindo necessidade de reimpressões e desperdício. Tintas à base de óleos vegetais (soja, milho, linhaça) substituem derivados de petróleo, reduzem toxicidade e pegada de carbono.
Empresas brasileiras e multinacionais desenvolvem resinas para formulação de tintas flexográficas em base aquosa, compatíveis com diferentes substratos e aplicáveis em embalagens de alimentos, com produtos contendo até 64% de conteúdo biológico, reduzindo pegada de carbono. Fabricantes de tintas oferecem soluções de lavagem facilitada (wash-off inks), que permitem remoção eficiente de tintas no processo de reciclagem, aumentando reciclabilidade de rótulos e embalagens.
Desafios Estruturais e Consolidação do Setor
O mercado global de impressão enfrenta desafios estruturais profundos. A pandemia de COVID-19 acelerou tendências que já estavam em curso: declínio acentuado de publicações, jornais, revistas e impressos promocionais, com perda de volume que não retornará. A Smithers estima que o volume total de substratos de impressão cairá de 1,95 trilhão de metros quadrados em 2019 para 1,85 trilhão de metros quadrados em 2030, embora a tonelagem total de substratos aumente ligeiramente (de 251,7 milhões de toneladas em 2020 para 264,4 milhões em 2030) devido ao maior uso de materiais de embalagem com maior gramatura.
O choque econômico da pandemia levou a fechamentos, fusões e aquisições em larga escala, reduzindo significativamente o número de prestadores de serviços de impressão (PSPs). Empresas sobreviventes precisam se adaptar a um mercado que prioriza custo, agilidade, tempo de resposta e digitalização, muitas vezes ampliando portfólios para incluir sinalização de distanciamento social, equipamentos de proteção individual (EPIs), decoração industrial e funcional, e serviços de web-to-print.
No Brasil, o setor de embalagens plásticas flexíveis enfrenta desafios adicionais: aumento de 58% nas importações em 2024, enquanto exportações caíram 4,2%, resultando em queda de 93,5% no saldo comercial. A competitividade com produtos asiáticos, que se beneficiam de menores custos de produção, representa ameaça significativa para a indústria nacional.
Perspectivas para o Brasil e América Latina
Na América Latina, a Smithers projeta crescimento da impressão flexográfica de US$ 8,43 bilhões em 2022 para US$ 9,94 bilhões em 2027. No Brasil, o setor de embalagens flexíveis apresenta resiliência: apesar de desafios macroeconômicos (juros altos, inflação volátil, dólar elevado), a indústria mantém trajetória de crescimento, impulsionada por segmentos como alimentos, bebidas, higiene pessoal, limpeza doméstica, pet food e farmacêutico.
A expectativa para 2025 e anos seguintes é de crescimento de 2,5% em volume de produção, com aumento significativo na adoção de embalagens sustentáveis, inteligentes e tecnológicas, e expansão de soluções com sensores embutidos, removedores de oxigênio, filmes de alta barreira, códigos QR, etiquetas NFC e sensores de frescor, que melhoram funcionalidade, segurança e experiência do consumidor.
Embalagens flexíveis ganham espaço sobre embalagens rígidas, substituindo formatos plásticos rígidos por substratos flexíveis mais leves, reduzindo consumo de matéria-prima, emissões de gases no ciclo de vida e volumes de resíduos. A demanda por porções menores, materiais recicláveis e soluções adaptadas ao e-commerce impulsiona inovação e competitividade.
Oportunidades Emergentes e Modelos de Negócio Inovadores
Embora segmentos tradicionais declinem, oportunidades emergentes abrem-se em nichos de alto valor: embalagens inteligentes e ativas, rótulos com rastreabilidade e segurança, impressão de dados variáveis, logística de impressão descentralizada (on-demand manufacturing), serviços de web-to-print, impressão industrial e funcional, e soluções para e-commerce.
A impressão híbrida (combinação de analógico + digital) e a impressão one-pass (passagem única) otimizam custos e qualidade, permitindo que PSPs escolham o processo ideal para cada trabalho na mesma linha de produção. A integração entre pré-impressão, impressão e acabamento, aliada a workflows automatizados e inteligentes, reduz tempos de setup, minimiza desperdícios e acelera entregas.
A impressão 3D (manufatura aditiva) integra-se à Indústria 4.0, oferecendo produção sob demanda, prototipagem rápida e designs complexos em setores como saúde, automotivo, aeroespacial e bens de consumo. No setor gráfico, a impressão 3D viabiliza moldes, gabaritos, componentes de máquinas e peças de reposição com agilidade e baixo custo.
Conclusão: Um Setor em Reinvenção
O mercado global de impressão até 2030 caracteriza-se por crescimento moderado em valor, reestruturação profunda de segmentos e aceleração tecnológica sem precedentes. Embalagens, rótulos e impressão digital lideram a expansão, enquanto publicações e impressos gráficos tradicionais enfrentam declínio estrutural. A flexografia mantém relevância, especialmente em embalagens de grande volume, mas enfrenta concorrência crescente de inkjet de alta produtividade e configurações híbridas.
A digitalização, automação, Indústria 4.0 e sustentabilidade não são mais diferenciais competitivos, mas condições de sobrevivência. Gráficas e convertedores que investirem em tecnologias digitais, workflows inteligentes, materiais sustentáveis, economia circular e novos modelos de negócio estarão posicionados para capturar oportunidades em mercados dinâmicos e exigentes. A transição exige requalificação de equipes, adaptação cultural e visão estratégica de longo prazo, mas os benefícios — eficiência operacional, redução de custos, agilidade, qualidade, responsabilidade ambiental e conexão com consumidores — justificam plenamente os investimentos e esforços necessários.



